Neste mês de julho de 2013 completa-se 31 anos da morte de Gabriel Pimenta, juizforano, uma das vítimas da ditadura militar brasileira. Abaixo, cito um pequeno trecho do livro Memórias de Esquerda, onde abordo o caso de Gabriel, que foi militante do Movimento Estudantil, através das memórias de seus irmãos José Pimenta e Rafael Pimenta.
(...)
Gabriel Pimenta, militante estudantil do MR-8 e advogado do sindicato dos
motoristas, trabalhadores rurais e da construção civil em Marabá, no Pará, na
década de 1970, chegou à morte, envolvido em conflitos de terras. Irmão de José
Pimenta e Rafael Pimenta, entrevistados para esta pesquisa, que trazem na
memória a experiência de Gabriel, que deixou para eles o testemunho de coragem
na luta política, e que expressava as características do MR-8 e do regime
militar na época.
Meus irmãos, vários deles militaram na política. Além
do Zé Pimenta, o Gabriel Pimenta, que foi advogado, morreu assassinado no Pará,
em julho de 1982. Por causa de política, que ele defendeu umas famílias lá
contra um invasor de terra, e ganhou o processo no Tribunal do Pará e o fazendeiro
mandou matar ele. Mas as famílias continuam lá até hoje, ganharam a ação e tal.
(Rafael Pimenta, entrevista de pesquisa).
O Gabriel, ele formou em Direito aqui, teve uma
participação ativa também no movimento estudantil junto com a gente. (...) Ele
ficou no Pará três anos, começou em Conceição do Araguaia, foi pra Marabá. Em
Marabá, ele movia uma ação grande contra os grileiros de terra. E ele
ganhou uma ação contra uma fazenda que chama “Pau Seco”, (...) só que a fazenda
foi tomada jagunço. E ele ligou pro Antonio Chico e falou pra ele: “temos que
garantir essa parada aí, não vai ser só na justiça não”. Aí o Antonio Chico
organizou um grupo e nesse grupo ele botou umas vinte, trinta pessoas, eles
fizeram bala até com pilha derretida, porque eles não tinham recurso de nada.
Quer dizer, a vontade de pegar a terra era tão grande que eles passaram os
jagunços lá. Expulsaram os jagunços. Em função desse episódio, o Gabriel foi
assassinado. Não, não foi só desse episódio, ele construiu, ou fez ou reorganizou
o sindicato dos taxistas, da construção civil e o sindicato rural de Marabá. E
ele foi organizando delegacias sindicais, criou delegacias sindicais pra
proteger os dirigentes. Que aí eles fazem delegacias em locais distantes da
cidade, onde os grupos de posseiros se organizavam. Então era essencialmente
pra defender as posses dos posseiros que já moravam lá há muito tempo (...) Pra
você ter uma idéia, nesse processo da resistência armada lá do Antonio Chico,
que era o presidente do sindicato dos trabalhadores rurais nessa época, eles
tiveram que ficar sumido. O Gabriel ficava muito no mato, também ficava muito
com eles, porque a pressão era muito grande na cidade. Mas aí no dia que ia
fazer a reconversão do PMDB em Marabá, eles tinham que ir, eram os advogados
que organizavam a conversão. Foi nesse dia, 18 de julho de 1982 que ele foi
assassinado. Então isso é uma conseqüência do movimento estudantil aqui de Juiz
de Fora. É uma conseqüência direta daquele crescimento daquela consciência
social, política, que se formou em todas essas pessoas. E ele foi uma expressão
disso, desse movimento estudantil, desse processo político aqui de Juiz de
Fora, que foi pra aquela região, e acabou desenvolvendo lá esse trabalho. (José
Pimenta, entrevista de pesquisa).
A missa de sétimo dia de Gabriel Pimenta, em julho de 1982, envolveu todo
o movimento estudantil e outras organizações de luta política na cidade. Uma
nota foi distribuída aos estudantes denunciando a morte de Gabriel Pimenta e
convidando para a missa que se tornou um grande ato político através do
pronunciamento de diferentes organizações presentes.
(...)
LACERDA, Gislene Ed.. Memórias de Esquerda: o movimento estudantil em Juiz de Fora de 1974 a 1985. Juiz de Fora: Funalfa Edições, 2011. p. 229 - 230
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Nota Missa de 7º dia de Gabriel Pimenta. Arquivo do DCE da UFJF. |
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